Somos todos estuprados

Então estamos discutindo a questão do estupro, por conta do caso horrendo da garota que foi tomada por 30 (ou 33, ou 29, pouco importa) homens. Há quem diga que essa discussão não leva a nada. O estupro já aconteceu.

Mas tem um discurso rodando por aí que tenta relativizar o acontecido (como se isso fosse possível), com a divulgação de alguns vídeos e áudios da menina (porque ela é uma menina, não uma mulher, totalmente consciente de seus atos).

Se falar não adianta nada, por que será então que tanta gente tenta construir e espalhar um discurso de que “talvez não tenha sido estupro”?

Certamente por saberem o que significa repetir uma ideia, mesmo que falsa, diversas vezes.

E aí fica claro que esse material foi vazado por gente interessada em que o caso não vá para frente, tanto em função de em quem pode respingar (líderes do tráfico, chefes de morro, políticos, entre outros), quanto da perpetuação do modelo machista e da cultura do estupro – mostrado pelas atitudes de um inepto delegado que teve a incrível capacidade de perguntar se a garota tinha o costume de participar de sexo grupal.

O delegado e muita gente, dentro do tráfico inclusive, não considera o que aconteceu um estupro. Não consideram estupro, porque se assim o fosse, a própria “ética” do mundo do crime trataria de dar cabo dos acusados. “Ela queria”, eles dizem. “Você já ouviu ela falando que ia chupar todo mundo do bonde?”, argumentam.

Porém, é preciso lembrar a esses ignorantes e também aos justiceiros de Facebook, homens e mulheres machistas em geral, que a Lei brasileira é muito clara: não existe consentimento no sexo com menores. Por esses serem incapazes de tomarem decisões a respeito de seus corpos e suas vidas com real consciência do que virá como consequência.

A realidade causadora do caso em questão é muito mais dura e cruel. Meninas como a estuprada vivem num ambiente inóspito, com completa ausência do Estado, sem educação de nenhum tipo. Família? Não é um conceito realmente sólido e conhecido por essas pessoas.

Para elas, ser uma das “namoradinhas do tráfico” significa ascensão social, significa serem notadas, receberem uma atenção que nunca antes existiu em suas vidas. Além de comerem como nunca e vestirem-se como sempre quiseram. E também receber um suprimento ininterrupto de drogas que as tira dessa absurda realidade.

Nesse contexto, ela vai usar o sexo como moeda de troca, vai ser violentada e dizer que gosta, que queria.

Só que isso não tira o estupro da história. Aliás, isso só amplia a violência. Porque não é estupro somente do corpo. É estupro da individualidade, da vida, da alma.

É um estupro governamental contra todo o povo, do Rio e do restante do Brasil, por não recebermos aquilo pelo qual nossos impostos pagam.

É um estupro cultural, que nos tira a consciência e tenta penetrar a força, em todos nós, a ideia de que é possível uma menina de 16 anos considerar normal e inclusive querer fazer sexo com 30 homens.

Todos somos estuprados. Não é questão de aceitar, pois não se escolhe ser estuprado. É questão do que fazer depois da violência. Denunciar, falar sobre, se indignar é o começo de tudo.

E aí está a validade da discussão. Pois o simples fato dela estar em curso já mostra que podemos ser melhores do que temos sido.

O que não dá mais para aceitar são argumentos simplistas, visões reduzidas, machistas e elitistas do mundo. A complexidade se impõe inexoravelmente. Precisamos pensar mais e achar caminhos. Que não dependem (apenas) dos políticos. Dependem de todos nós, em nossas casas, escolas e até mesmo no Facebook – essa grande vitrine para nossos corações e mentes sujos.

As palavras têm poder. Falemos mais, para que a realidade – pouco a pouco – possa ser alterada.

Vingadores – A Era de Ultron: quebradeira sem limites – e um roteiro também quebrado

Como começar um texto sobre um filme tão aguardado quanto “Vingadores – A Era de Ultron”? Bem, poderia iniciar dizendo que Robert Downey Jr continua irritantemente perfeito como Tony Stark. Ou ainda, destacar o quanto o diretor Joss Whedon se dedicou a dar tempo de tela e relevância no roteiro para quem pouco brilhou no primeiro filme, notadamente o Gavião Arqueiro.

Mas, sinceramente? O que mais me saltou aos olhos nesta nova aventura dos “Heróis Mais Poderosos da Terra” foi o fato de que nunca o cinema foi tão HQ, para o bem e para o mal. “A Era de Ultron” lembra as melhores pancadarias dos Vingadores nos gibis e joga os espectadores para o centro da batalha desde o minuto 0. Essa é a parte legal, são os heróis ganhando vida e fazendo um monte de coisas que só o papel aceitava.

A parte complicada é que, como em muitos gibis, a história parece começar do meio. Não há o menor interesse em apresentar ninguém, muito menos a situação em si. Como numa revista em quadrinhos que se inicia com a referência de uma edição passada, “A Era de Ultron” considera que todo mundo assistiu não só ao primeiro filme do supergrupo, mas especialmente “Capitão América 2 – O Soldado Invernal”.

Ok, até assistimos. Mas não dá para o roteiro fazer isso e achar que está tudo bem. Não está.

A sensação com esta continuação é de que o foco estava em brincar de bonequinho do jeito mais explosivo possível. A ideia principal era essa, aí construiu-se uma história ao redor desse conceito e o barco seguiu.

Tudo que era muito bem amarrado no primeiro filme, neste está solto e sem muita coerência. Corrido mesmo. E para segurar essas pontas, dá-lhe atores bons e diálogos espertos. Os melhores são de Bruce Banner (Mark Ruffalo) com Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Natasha Romanoff (Scarlett Johanson). Aliás, o casal Hulk e Viúva Negra foge da falta de noção do roteiro e tem um relacionamento construído de maneira bastante interessante.

A surpresa da vez fica por conta do tempo de tela dado a Clint Barton, o Gavião Arqueiro interpretado por Jeremy Renner. A ele cabe uma das surpresas do filme (no spoilers here). Se fosse na DC, o fato em questão (relaxa, você vai ver o filme e entenderá) os fãs estariam se rasgando, mas a galera da Marvel parece ser mais suave e não vi ninguém ainda reclamar.

De toda forma, o que posso dizer é que ele é a parte mais humana do grupo e isso é algo importantíssimo, inclusive filosoficamente, quando se enfrenta algo que vai além da humanidade, a inteligência artificial Ultron.

Vilões na medida dos heróis

Mais uma vez não quero dar spoiler, ainda que os trailers já passem uma boa ideia de quem cria Ultron (E, pô, ele é um robô… tá na cara, né?), então não entrarei em detalhes aqui. A questão é que este é um vilão sob medida para um filme que tem como objetivo botar os super-heróis para quebrarem tudo na tela. Ele é poderoso, mal e bastante louco. Nisso, a voz de James Spader não só ajuda, como amplifica a insanidade.

Ao seu lado, Ultron carrega os gêmeos Wanda e Pietro Maximoff. Já sabemos no que isso vai dar, afinal nada mais Marvel do que vilões que tornam-se heróis depois. Mas ainda assim, enfrentar seres com poderes maiores ou equivalentes aos seus é algo novo para esses Vingadores – mesmo que agora eles sejam um azeitado grupo que age como uma onda, todos juntos e bastante integrados.

Nessa mesma onda há a chegada do Visão. Esse sim, uma belíssima adição ao elenco, tanto do ponto de vista de atuação – Paul Bettany está espetacular – , quanto da interação entre os personagens (sim, rola um “olhar” para Wanda”, entre outros detalhes).

Para os nerds

Vários pequenos easter eggs estão espalhados, a maior parte deles de maneira bastante declarada, por toda a narrativa de “A Era de Ultron”. A construção do que será a Guerra Civil, filme do Capitão América que será lançado no ano que vem, está ali, nitidamente colocada. Não são poucos os embates entre Steve Rogers e Tony Stark e quem tem olhos vai enxergar.

Óbvio, há uma cena depois que o filme acaba, mas, sinceramente, foi a pior de todas da Marvel até agora. Eu fiquei mais empolgado com a última cena do filme mesmo do que com ela. Mas, vejam e avaliem.

Pode parecer depois desse texto que “Vingadores – A Era de Ultron” é um filme ruim. Não chega a tanto. Mas poderia ser melhor se tivesse havido uma devoção maior ao roteiro. E, sim, uma bela sessão da tarde. E isso já faz a gente querer ir avante.

Seduzido pelo demônio

Ok, então acabei de assistir ao primeiro episódio de “Demolidor” no Netflix e… Simplesmente estou abismado.

Seriados de super-heróis não são novidade. Existem desde as versões para o cinema de Batman, Capitão Marvel, Superman e Capitão América, na década de 1940, e desde lá já se faz o esquema de separar uma história em pequenos pedaços que se sustentam em si mesmos e, que em alguns casos, contam uma narrativa maior.

E desde Smallville, com seus intermináveis 10 anos, que a TV não fica sem uma série super-heróica na programação. Netflix é outro bicho, mas o fato é que esse tipo de produção tem audiência e gera interesse.

Na distinta concorrência, “The Flash” vem quebrando recordes de audiência, num caminho aberto por “Arrow” duas temporadas atrás. A própria Marvel tem o seu “Agents of S.H.I.E.L.D”, que vem numa second season bem meia boca, se comparada com a primeira.

Mas “Demolidor”, meus amigos, faz com que o jogo mude completamente. Nunca uma série de super-herói foi tão bem feita, organizada e pensada. Eu sou fã de “The Flash”, mas a diferença aqui é entre crianças e adultos.

Claramente não foi algo feito para fanboys. É algo para quem gosta de seriados adultos policiais. Se você já leu as aventuras do demônio Homem Sem Medo, parabéns. Se não, venha que te abraçamos e não te chamamos de idiota nerd em nenhum momento.

Estamos falando de uma série do nível de “True Blood” – só para comparar com o último trabalho de Deborah Ann Woll, que interpretava a vampirinha Jessica lá e aqui faz o papel de Karen Page.

E quando eu digo “nível”, quero dizer quebradeira e sangue. Só perde em sexo, mas até isso a produção teve coragem de fazer.

A história

No primeiro episódio somos apresentados a Matt Murdock, um advogado que ficou cego quando era criança. Filho de um boxeador, Matt está iniciando a carreira ao lado do amigo e também advogado Foggy Nelson.

O primeiro caso deles é tentar salvar uma jovem perdida na cidade grande (Karen Page) que se vê envolvida numa trama com assassinato e corrupção. Aliás, pontos extras para a Marvel aqui. De onde vem a corrupção? Da reconstrução de New York após a zona que fizeram lá os Vingadores.

Tudo no mesmo universo. Mas, como na vida real, cada pessoa é um mundo e o de Matt Murdock, o Demolidor, é frio e sombrio. Se Capitão América e Homem de Ferro brilham ao sol, este herói se veste de preto e tem nas sombras um grande aliado.

A trama se apresenta sutilmente neste primeiro episódio que, espertamente, planta todas as sementes para algo que vai crescer e explodir fortemente – disso não fica nenhuma dúvida.

A produção

Fiquei muito positivamente impressionado com a qualidade do roteiro, que não faz concessões e constrói uma narrativa sólida e complexa, com idas e vindas no tempo que evitam a bobagem de se ficar somente na origem do herói.

No escuro, quem manda é ele.

Outra coisa bem interessante é o uso de luz e sombra. O clima mais pesado foge completamente das produções do gênero. Aliás, acho até que “Demolidor” é algo tão diferente (pro bem) que merece uma nova classificação, para além de super-herói. É um drama policial, que tem entre suas características o fato de ser baseado em uma HQ e cujo personagem principal é um herói com habilidades especiais.

“Gotham” tenta fazer o que “Demolidor” entrega. Algo visceral e, principalmente, verossímil. Nada aqui é caricato, cartunesco. As fraturas dos bandidos e pau que o herói leva confirmam isso.

Mas, mesmo assim, entendo “Demolidor” como a produção mais “Marvel” de todas as que a Marvel já fez. Porque, agora, pela primeira vez, heróis sofrem, vivem e demonstram sua humanidade – de verdade. Do jeitinho que Stan Lee queria, quando inventou essa brincadeira lá nos anos 1960…

Ah, e nunca mais ninguém vai lembrar do filme do Ben Affleck, isso eu garanto.

De que cor é o seu Homem-Aranha?

Então a Marvel e a Sony chegaram a um acordo e o Homem-Aranha vai passar a integrar o mesmo universo cinematográfico de Homem de Ferro, Capitão América, Hulk e demais Vingadores.

Grande notícia? Sem dúvida alguma, tanto do ponto de vista dos fãs – que esperam agora filmes que tenham a mesma qualidade dos dois primeiros da trilogia dirigida por Sam Raimi e estrelada por Tobey Maguire, quanto para uma análise mercadológica: foi um excelente negócio o que fez a Sony, reconhecendo sua incompetência em lidar com esse produto e terceirizando sua produção a quem entende muito mais do riscado.

Tudo saindo como se prevê (e a Marvel é rainha de acertar nisso), o Cabeça de Teia deve aparecer em Capitão América 3: Guerra Civil. Aos não-iniciados, explico: na saga de mesmo nome nas HQs, a comunidade super-heróica se divide entre os que aceitam a interferência do governo em suas vidas (leia-se: abrir sua identidade secreta) e os que querem continuar livres como sempre foram. Do lado do establishment, Homem de Ferro. Do lado da liberdade, seu sempre sentinela, Capitão América.

Nos quadrinhos, seduzido pela segurança de um emprego e por uma suposta estabilidade oferecida por Tony Stark, Peter Parker, o Homem-Aranha, fica do lado dos pró-registro.

Miles Morales, o Homem-Aranha negro, do Universo Ultimate

É isso que deve acontecer também nos cinemas. Mas a grande questão que pulula na internet é “quem será – ou deve ser – o Homem-Aranha?”. Não se trata aqui de discutir se Andrew Garfield continua como o Amigão da Vizinhança (tudo indica que não), mas sim de uma questão étnica. Há quem defenda, inclusive dentro da Marvel, que ao invés de usar Peter Parker como ele sempre foi (caucasiano), que façam Peter agora ser negro ou ainda utilizem outro alterego, Miles Morales – um rapaz que também é Homem-Aranha (de um universo paralelo, gibi é coisa de maluco mesmo), e que é não só negro, mas de origem hispânica.

A discussão sobre a mudança étnica ou de gênero de personagens de HQs em outras mídias (ou até nos próprios quadrinhos) não é nova. Tim Burton tinha planos para um Robin negro, caso continuasse a dirigir a franquia Batman nos anos 1990. O mesmo diretor iniciou um projeto de Superman em que Jimmy Olsen seria negro. Há quem diga que a personagem Jenny, que aparece em “O Homem de Aço”, de Zack Snyder, seria uma versão feminina de Jimmy Olsen. Logo Jimmy, que sempre se travestiu de tanta coisa e nem precisaria disso…

Para complicar mais a discussão, alguns fatos recentes. O primeiro é que na nova versão do Quarteto Fantástico, o papel de Johnny Storm, o Tocha Humana, será de Michael B. Jordan, um jovem ator negro. Bom sempre lembrar que na versão anterior do Quarteto nos cinemas, quem interpretou o cabeça quente foi Chris Evans, loiríssimo que hoje é o Capitão América.

Outra notícia nova foi a forte reação da latina Michelle Rodriguez quando perguntada se ela seria a nova Lanterna Verde nos cinemas. Em resumo, Michelle disse que era bom Hollywood parar de “roubar os heróis dos brancos” e que “começasse a criar os seus próprios”, no sentido de criar novos papéis que fossem originalmente de outras etnias e gêneros.

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Siga para uma nova vida longa e próspera, senhor Spock

Ele era o contraponto perfeito para a canastrice de William Shatner e seu Capitão Kirk representado como a própria essência do caos, do improviso.

Spock era a ordem e Leonard Nimoy, com um leve levantar de sobrancelha demonstrava isso. Um dos momentos que mais me marcou quando era criança, lá pelos 5 ou 6 anos (eu tive uma infância interessante) foi assistir à cena em que Spock morria em “Star Trek II – A Ira de Khan” .

Felizmente, no filme seguinte, Spock estava de volta. Agora, infelizmente, o imponderável chegou na vida real.

Nimoy ficou tão ligado ao personagem que até escreveu um livro, “Eu não sou Spock”, para tentar se desvencilhar daquela imagem de orelhas pontudas. Se arrependeu depois e escreveu outro, “Eu Sou Spock”, abraçando o papel que o marcou e que impactou tanta gente, por tantas gerações.

Coube a ele – e não a Shatner – a honra de passar o bastão para uma nova geração (não “aquela” Nova Geração), fazendo a ponte para um novo Spock, agora interpretado por Zachary Quinto.

Outros atores daquela trupe já foram para o outro lado, mas Kirk e Spock… Jornada nas Estrelas era mesmo deles dois. Agora nosso vulcano mais querido, do alto de sua racionalidade alienígena, nos faz mais humanos do que nunca, com a grande emoção que sua perda nos gera.

Sua vida foi longa, 83 anos, e próspera – foram mais de 40 filmes, como ator e dublador, e incontáveis episódios de séries de TV.

Audaciosamente vá, Spock. Vá em paz, Leonard Nimoy.

Singular e expansivo: o novo desafio do Astronauta

Comecei este blog com uma resenha do primeiro volume do Astronauta, então nada melhor do que começar o ano novo falando sobre a segunda edição: Astronauta – Singularidade.

Quando analisei a primeira edição (veja aqui) disse que um dos problemas era justamente a falta de notícias sobre uma continuação. Bem, não poderia ser melhor o resultado desse segundo álbum. Se Magnetar tinha um problema de ritmo, terminando de maneira abrupta, Singularidade é uma obra exemplar de Sci-Fi e aventura. Continuar lendo

Términos e despedidas

2014 vai se esvaindo e, em seu ocaso, leva para o outro plano um artista marcante, uma voz única: Joe Cocker.

Em 29 de março de 2012, na sua última passagem pelo Brasil, tive a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo, com sua potente voz rouca, cheio de trejeitos nas mãos, aguentando firme os clássicos que fizeram sua fama, como “A little help from my friends” (num dos poucos, senão o único, caso em que alguém melhorou algo dos Beatles), “You can leave your hat on”, “feelin all right”, entre outros.

A data é inesquecível para mim porque minha mãe deixou este plano no dia seguinte e, naquela quinta-feira, ela já estava em coma, sem condições de voltar. Aí, um desavisado pode pensar: “o cara está escrevendo um texto para dizer que foi num show enquanto a mãe morria no hospital”. Pois é, foi por isso mesmo que resolvi escrever.

Eu havia comprado os ingressos muitos meses antes, quando nem imaginava que viveria a maior perda da minha vida justamente naqueles dias. E tomei a decisão de ir ao show, mesmo em sofrimento, porque tenho certeza de que minha mãe gostaria que eu fosse. Porque foi ela quem me apresentou aquele som. Era ela quem adorava a abertura de “Anos Incríveis”, justamente por conta de “A little help…”.

Foi para ela que eu fui àquele show. E não me arrependo. Aliás, me orgulho. Me orgulho de ter vivido cada etapa da doença da minha mãe ao lado dela, o que me faz não ter nada mal resolvido, nada que devesse ser dito e não foi. Nada que tivesse que ser vivido e que tenha sido cortado.

Hoje, ao saber da passagem de Cocker, tudo isso me voltou à mente, justamente por pensar na alegria de ter vivido aquele último show por aqui.

Sua morte foi a pá de cal num ano que, acredito, não tenha sido fácil para ninguém, já que a esmagadora maioria das pessoas com quem falei tem mais reclamações do que elogios, mais débitos do que créditos.

Mas, se não tem nada de memorável em 2014, que fique ao menos o ensinamento de que a vida é curta demais para aceitar fazer aquilo que te ofende, para perder tempo fazendo o que não te faz feliz, para ser quem você não é, para ser humilhado no trabalho, nos relacionamentos ou em qualquer outra coisa.

Em 2015, vá aos shows que você queira, esteja ao lado de quem realmente é importante, diga tudo que sentir que é necessário, se preocupe menos com o que vão pensar de você. E viva, viva muito. Em resumo, não perca oportunidades. Você, definitivamente, não sabe se elas voltarão.

Eu já me comprometi, comigo mesmo e até com a memória e o espírito da minha mãe, que não me criou para ter uma vida mais ou menos. Ela me criou para o máximo. E nesse caminho que vou. E você, o que fará com um ano novinho, esperando para ser vivido do seu jeito?

Bom 2015.